O FAZER DOCENTE NA ÁREA DE ESTUDOS SOCIAIS
Particularmente sempre gostei desta disciplina desde os primeiros anos da minha vida escolar. O interesse em conhecer sobre outros lugares, seus aspectos históricos, culturais, humanos, geográficos me ir em busca de conhecimento através dos livros, revistas, programas de TV. É algo que sempre me fascinou. Faz parte de mim, de minhas preferências e aptidões. No entanto este interesse nato, por assim dizer, foi alimentado em boa parte pelos meus pais que costumavam ler à respeito, responder às minhas perguntas,contavam seus saberes. Minha mãe, por exemplo, tinha um livro antigo de Estudos Sociais e cedo me ensinou as capitais dos estados brasileiros. Ela me falava sobre as mudanças no mapa . Como passeávamos bastante, tínhamos parentes em outras cidades do RS e em outros estados, ficava fácil para mim entender sobre distâncias, posição geográfica, diferença entre bairro, cidade, estado, etc. Algo difícil de ser entendido por boa parte dos alunos de hoje, pelo menos na clientela com ao qual trabalho.
Meu pai que viveu os chamados anos de chumbo,foi líder em greves trabalhistas, tinha idéias comunistas, lia livros à respeito. Como os jovens da época alimentava o sonho de justiça e igualdade social.Tudo isso ele contava para mim e minha irmã. Tanto ele quanto minha mãe nos contavam sobre épocas passadas, estabelecendo comparações e apontando aspectos positivos e negativos.
Relatei estes fatos da minha vida pessoal para ressaltar que ao chegar na escola, já estava familiarizada com a disciplina o que facilitou sua compreensão. Lendo à respeito, tracei um paralelo com minha vida escolar pois com está escrito no texto, me sentia sujeito atuante de minha aprendizagem e do processo histórico ao qual pertencia.
Entretanto, durante minha vida escolar, a metodologia se resumia em uma repetição mecânica de informações e não a construção de conhecimentos. Não havia preocupação em instrumentalizar os alunos para compreensão e posicionamento diante da complexidade contida em Estudos Sociais e tampouco a integração com outras áreas do conhecimento. O ensino de Estudos Sociais limitou-se a trabalhar as especificidades da áreas de forma abstrata , sem apoiar-se em documentos, depoimentos. Por exemplo: não me lembro de visitar museus, apreciar fotos, entrevistar pessoas, ter acesso a revistas do gênero. Tudo girava em torno do livro didático e explicação da professora, que por vezes acrescentava algo a mais no texto lido.Mas não explorava o assunto .No último ano do 2º grau geografia não fazia parte da grade curricular.Esta matérias sempre tiveram peso menor em relação a disciplinas como Português e Matemática.
Esta constatação se contrapõe a reforma educacional proposta à partir de 1971, quando o objetivo traçado para esta área do conhecimento era a integração espaçotemporal dos educando para compreensão da realidade e o ajustamento ao meio social.
Já que fomos ensinados desta forma sem questionamentos, ao iniciar me trabalho como docente acabei repetindo comportamentos, metodologias e repetindo as mesmas ações.
Digo isso baseado nos primeiros de magistério.Trabalhei de forma bastante tradicional, executando conteúdos previamente estabelecidos, planejados para a referida série. No entanto, fui percebendo que os alunos não demonstravam interesse, não estudavam em casa e o que eu falava parecia extremamente distante deles e portanto trazendo total incompreensão. Datas históricas não eram memorizadas. Associei este fato a vivência dos alunos. Diferentes de mim eles não eram incentivados, não tinham fontes que os fizesse estabelecer alguma relação significativa. Cidadania, participação e intervenção crítica não acompanhava meus alunos e suas famílias. E continua assim. É uma questão cultural. Não possuem uma referência. Além do mais estão acostumados a receber tudo, a terem suas necessidades principais atendidas, mesmo que de forma precária, graças ao assistencialismo que domina as esferas da política brasileira.Contentam-se com o pouco. Não sentem-se parte integrante da sociedade, portanto se eximem de qualquer compromisso, de qualquer responsabilidade. Só existe o mundo em que vivem.
Então enfrentei um dilema: como passar o conteúdo de forma que os alunos assumam outra postura? Sintam-se atuantes, reconheçam-se dentro de determinado contexto histórico ou geográfico? Reconhecerem também a sua parcela de responsabilidade dentro da sociedade na qual estão inseridos? E que todos, desde os primórdios somos os construtores desta história?
Visto que nos primeiros anos de magistério, grande parte dos alunos vindos de municípios da Região Norte do estado e da divisa com a Argentina comecei a usar esta vivência e relaciona ao conteúdo. A maioria vinha da zona rural, aproveitei suas experiências, fazia entrevistas sobre os afazeres da família, como era a cidade e assim por diante. Percebi o quanto os saberes dos alunos é enriquecedor, o quanto eles tem a mostrar. Passei a elaborar a minha metodologia de trabalho baseado na bagagem trazida pelos alunos, nos seus referenciais. Este passou a ser o ponto de partida. As aulas tomaram outro rumo.Ao ler o parágrafo do texto que menciona os processos migratórios no RS, as sugestões de introdução do conteúdo, é como se tivesse vendo a minha aula descrita ali. Afinal fiz investigações, localizamos cidades de origem no mapa e a distância de Novo Hamburgo, construímos linhas de tempo...
Lembro de certas atividades que foram marcantes. Certa vez fiz um passeio por Novo Hamburgo com meus alunos de 3ª série. Pedi que observassem bem todos os lugares visitados. Nas aulas posteriores trabalhei o mapa da cidade, destacando os principais lugares visitados e o bairro no qual se localizavam. Levei fotos para que os alunos reconhecessem os locais. Perceberam as distâncias entre o bairro que moravam e os demais, a distância em relação ao centro.Depois daquele trabalho tive certeza de que os alunos tinham compreendido o que significava um mapa. Há quatro anos atrás quando trabalhava a Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos, fizemos um passeio no Martim Pescador. Ao passar pelo Arroio Cerquinha, logo os alunos disseram: “professora, aquele é um afluente não é?” Cheios de certeza.Visualizando a informação passada em sala de aula, torna-se significativo. Poderia aqui citar várias outras atividades que deram certo. Mas creio que estas ilustram as mudanças na minha prática pedagógica. É claro que nem sempre consigo atingir meus objetivos, ainda me pego caindo no tradicional. Mas creio que mesmo dentro de uma metodologia com esta característica, se bem conduzido, pode contribuir para a aprendizagem.
É portanto imprescindível, agregar ao planejamento, a construção que se fez com os alunos, as hipóteses por eles levantadas, suas conclusões, definições, experiências, enfim tudo que for pertinente ao aluno. Á partir daí, temáticas que envolvam o cotidiano do aluno são mais ricas e oferecem maiores possibilidades, denotam um compromisso político com situações que outrora foram omitidas pela escola.
Considerar o aprender singular de cada aluno, seus saberes, compreender seu pensamento e partindo deste pressuposto, construir um currículo relevante que alcançará o objetivo em que a área de Estudos Sociais se propõe. Transformar situações pela atuação cidadã dos alunos.
sábado, 24 de maio de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário